Snyder Cut, cultura de fã e multidões raivosas

Uma análise de como o novo corte de Liga da Justiça se tornou realidade.

Dia desses, dei de cara com uma publicação do Instagram do Canal Space que, supostamente, trazia provas de que “às vezes vale reclamar na internet”. A imagem compara duas versões de Sonic, Deadpool e Clark Kent, para demonstrar que a gritaria dos fãs teria sido um fator primordial para os produtores dos respectivos filmes enxergarem as próprias falhas e fazerem “a coisa certa”.

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A ideia do post é trazer mérito ao que os fãs fazem e falam. Ele cria a falsa impressão de que a relação entre consumidor e produtor de conteúdo na indústria cultural é igualitária. Não é.

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Mesmo assim, as linhas que separam o fã/consumidor do criador são cada vez mais tênues. Enquanto outrora, a autoridade da interpretação da obra vinha diretamente de seu autor, a Era da Informação possibilitou mudanças nessa dinâmica.

A criação de comunidades de fãs e subprodutos das obras originais (fanfics, blogs, fóruns de debate de teorias, etc) deu voz e um status de “guerrilheiro” a quem antes era visto apenas como a grande vítima da indústria cultural. Hoje, entende-se que o fã muitas vezes é um consumidor consciente e criativo.

O segundo movimento depois desse reconhecimento e dessa redenção é a apropriação e capitalização destes subprodutos, e é isso que vem acontecendo no momento. Essa sensação inicial de pertencimento dos fãs potencializa uma outra prática, que é a eliminação gradual, mas constante, da responsabilidade do autor/criador. Explico com um exemplo.

Por anos, isso aconteceu com “Game of Thrones”, com fãs da obra literária de George R.R. Martin preenchendo as lacunas deixadas pela série para os espectadores. Éramos meros explicadores dos pontos vazios, produzindo textos e vídeos contando como a série foi do ponto A ao ponto B. Para isso, dependíamos de informações que só existiam no outro meio.

Quando a série optou por largar de vez os livros e seguir seu próprio caminho, de repente estes explicadores se tornaram pedra no sapato. Não podíamos mais “redimir” as incongruências da série — como fazer isso se nosso ponto de vista vantajoso havia sido completamente escanteado? Ao invés disso, o que era possível fazer era escancará-las ainda mais.

Mas isso é assunto para outra hora.

Por isso, creditar a existência do Snyder Cut puramente ao investimento dos fãs é incompleto. Afinal, houve essa apropriação do movimento por parte do autor. Isso, sim, foi essencial.

O que transformou esta nova versão de “Liga da Justiça” em realidade foi uma junção de fatores. As campanhas incessantes — e muitas vezes agressivas — dos fãs estão presentes nesta conta, mas não sozinhas.

Jornalistas, executivos da Warner, críticos, acadêmicos e criadores de conteúdo passaram anos recebendo ameaças de morte e agressões verbais simplesmente por mostrarem desinteresse em um Snyder Cut ou simplesmente fazerem alguma crítica negativa ao Universo Estendido DC.

Algumas atitudes de Snyder acabaram legitimando e incentivando esses ataques. Partes deste fandom só se sentiam motivadas após o diretor demonstrar algum reconhecimento. O que ele fez, mais de uma vez, de formas tanto positivas e negativas. Publicações como o tuíte abaixo, por exemplo, apenas permitem às partes tóxicas que continuem sendo tóxicas.

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Não quer dizer que este comportamento nocivo seja culpa de Zack Snyder, mas é difícil desassociar uma imagem da outra. Na reportagem publicada pela Vanity Fair em fevereiro, a psicóloga clínica Drea Letamendi, que analisa arquétipos de super-heróis no podcast Arkham Sessions, explica:

“O que eu observo é uma falsa sensação de posse, que pode se manifestar como abuso, ameaças e reações intensas quando a história não sai do jeito que eles queriam. Eles gritam, e as pessoas ouvem. Mesmo que os comentários sejam negativos, eles estão ganhando um reforço positivo para continuar o que estão fazendo.”

Isso também não quer dizer que tudo tenha sido ruim. O movimento se tornou uma espécie de coletivo sem rosto, o que dá margem para ações tanto negativas quanto positivas. Por exemplo, o grupo angariou milhares de dólares para campanhas contra o suicídio, e promoveu debates online sobre o tema — uma causa próxima ao diretor. Sobre a violência, Snyder comentou:

“Eu penso que isso é 100% errado. Ninguém deveria estar chamando ninguém por nomes. Sempre tentei dar atenção aos fãs que fazem coisas boas."

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O Povo contra Joss Whedon

As confusões de bastidores e crises de imagem também contribuíram para o filme sair do papel. A finalização da obra de 2017 foi entregue a Joss Whedon, na tentativa de sanar as críticas ao tom sombrio do Snyderverso. Whedon havia sido responsável pelos dois primeiros filmes dos Vingadores, e estaria na direção do filme da Batgirl. Portanto, ele trazia uma carga de confiança de que poderia imprimir uma certa leveza à história.

É claro que não deu certo. É como se você começasse a fazer um bolo de limão e, com 80% da receita pronta, decidisse transformá-lo em uma torta salgada.

Além disso, vieram as controvérsias. Em 2017, Whedon foi acusado de infidelidades por sua ex-esposa. Depois, Ray Fisher veio a público para denunciar o comportamento do diretor no set durante as refilmagens de “Liga da Justiça”. Por fim, neste ano, Charisma Carpenter, de “Buffy” e “Angel”, confirmou os rumores que circulavam há anos nos bastidores sobre ela ter sofrido retaliações por causa da sua gravidez.

O rompimento com Snyder

A saída de Zack e Deborah Snyder da pós-produção do filme veio em meio a uma tragédia, com a morte repentina da filha do casal. Toby Emmerich explicou à VF que muitas pessoas na companhia, inclusive ele, sentiram-se mal pelas circunstâncias que causaram o afastamento — e também pelo fato de o diretor não conseguir finalizar a sua visão para o filme.

Claro, as coisas são motivadas por dinheiro, e não por peso na consciência. Levando em consideração que a visão de Snyder para o Universo Estendido DC já havia sido estraçalhada, parecia algo completamente fora de mão este projeto ser de alguma forma revivido, mais ainda nos cinemas. As coisas mudaram no momento em que o HBO Max precisou de uma atenção que não veio com o adiamento do especial de “Friends”.

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Presa fácil

Era uma conta simples. Com a pandemia, muitos projetos do HBO Max foram adiados pela dificuldade com as gravações. O streaming, recém-lançado, precisava de novidades que atraíssem a atenção do público. Havia este material, supostamente quase pronto e que, se relançado, poderia causar alguns efeitos positivos:

  1. Acalmar a horda de fãs.

  2. Diminuir a imagem de Joss Whedon no universo DC.

  3. Atrair novos assinantes para o HBO Max.

  4. Reparar a relação com Zack Snyder.

  5. Dar uma finalização minimamente digna ao projeto que foi tão massacrado.

Por isso, é necessário cautela ao enxergar o “Liga da Justiça de Zack Snyder” como uma conquista dos fãs, e mais cautela ainda ao afirmar que isso é algo positivo para a indústria. É claro, é uma vitória para os que fizeram campanhas positivas, mas também é uma vitória para as multidões raivosas que vão continuar atacando quem disser algo que não for de seu agrado1.

Além disso, incentivar a ideia de que as obras precisam ser modificadas a cada gritaria generalizada de fã na internet cria um precedente perigoso para a ideia de que conteúdos da cultura de massa precisam atender às necessidades do ponto de vista da audiência. Isso não é verdade.

É saudável que as fronteiras entre criador e espectador fiquem cada vez mais turvas, para que não exista uma única “autoridade interpretativa”. Isso enriquece o debate e convida a audiência para ocupar um lugar cada vez menos passivo. Mas a cada vez que grandes estúdios se dobram a “exigências” do público, tornam os criadores mais e mais reféns de uma suposta visão unificada — que não existiu e jamais deveria precisar existir.

Quando a ABC exigiu que David Lynch e Mark Frost revelassem quem matou Laura Palmer na segunda temporada de “Twin Peaks”, porque “o público queria saber”, a emissora cavou seu próprio buraco. A revelação até foi feita, mas Lynch abriu mão da história a partir dali e a série entrou em franca decadência. Há quem diga até hoje que o vazamento do teste de “Deadpool” foi calculado para avaliar a reação do público. O visual do Sonic melhorou, mas o que isso nos diz realmente sobre o filme?

Há casos e casos. Não está em discussão aqui a qualidade do novo “Liga da Justiça”, que ainda não conferi. Há quem diga que é a melhor coisa que aconteceu na história do Cinema, há quem diga que, bem, pelo menos é melhor que o de 2017. Em geral, é bom que Zack Snyder tenha conseguido imprimir sua visão ao filme, e que os fãs estejam felizes. Só devemos tomar cuidado para não ficarmos presos na narrativa de agradá-los o tempo todo. Sabe-se lá o que pode acontecer se virar moda esse negócio de grandes corporações cedendo às pressões de grupos anônimos, como pontua Julia Alexander no The Verge. “Star Wars - A Ascensão Skywalker” provou o gosto amargo deste remédio.

❄️ Falcão e o Soldado Invernal: O primeiro episódio da série já está no Disney+ e, até agora, me pareceu mais uma miniatura de um filme da Marvel sem grandes inspirações. Saudades, WandaVision. Mas vamos continuar acompanhando, porque não se dá veredito com um único episódio.

🔥 Cabras da Peste: O novo filme de comédia brasileiro da Netflix passa longe de ser um dos mais inspirados, mas é um divertimento satisfatório diante das boas performances de Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele.

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Diante de tantas manifestações violentas em defesa do idealizador, a imagem que ficou em evidência do grupo é muito mais a de anti-fãs — segundo o pesquisador Jonathan Gray, indivíduos que são consumidores, mas sentem um desagrado ao ponto de produzirem conteúdos negativos que acabam rebaixando o valor da obra.