10 anos depois, qual o legado de Game of Thrones para a TV?

Uma década após o primeiro episódio, uma análise das marcas deixadas pela série na Era do Streaming.

No dia 17 de maio de 2011, a HBO colocava no ar o primeiro episódio de uma nova série que, pouco tempo depois, alguns diriam se tratar da próxima revolução da TV. ‘Game of Thrones’ estreou na fronteira final entre o modelo linear e o streaming — a Netflix traria suas primeiras séries originais cerca de dois anos depois —, e apesar do desejo geral hoje ser o de esquecer todas as terríveis decisões que a levaram àquele final trágico, para o bem ou para o mal, sua herança está entre nós.

É importante destacar que este texto refere-se a heranças mais na forma como o público se relaciona com o conteúdo do que no entendimento das raízes da ficção seriada. Os aperfeiçoamentos da fórmula que vieram com a terceira era de ouro, por exemplo, são muito mais significativos do que a nova ótica trazida por ‘Game of Thrones’ — justamente porque o legado desta tece uma relação maior com a sua compreensão do público do que do meio.

Mesmo assim, uma vez que foi bem sucedida na captação do consumidor, seria inevitável que seus modos fossem replicados. Algumas vezes de formas interessantes, outras nem tanto. Por isso, estes são três espólios que ‘Game of Thrones’ nos deixou para a Era do Streaming.

Espalhamento e Perfurabilidade1

Estes dois termos têm relação com o poder de difusão e transformação de uma determinada narrativa para atingir e fidelizar novos espectadores. Eles dizem respeito a características diferentes, mas complementares — e ‘Game of Thrones‘ utiliza ambos.

Henry Jenkins propõe o termo espalhamento como uma alternativa à ideia de virais. Ele explica que as metáforas biológicas sugerem que os indivíduos estão retransmitindo a mensagem de forma inconsciente e sem modificá-la, e que é equivocado entender o consumidor de uma forma tão passiva. A cultura, afinal, é construída de forma constante.

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O espalhamento tem relação com os memes, com a apropriação dos símbolos e dos conceitos daquela produção para outros meios e formatos. Seja através de fanarts, de mercadorias, piadas, paródias, etc. No entanto, Jenkins compreende que esse espalhamento, embora capaz de atrair novos espectadores, não garante sozinho a fidelidade.

Por isso, Jason Mittel nos apresenta o conceito de perfurabilidade, que diz respeito aos programas que incentivam a investigação forense dos fãs, que cavam cada vez mais fundo naquela história ou em seus meandros para compreendê-la ou descobrir informações adicionais — e que isso, sim, traz a fidelização.

‘Game of Thrones’ reunir as duas características (sendo popular e profunda) a torna um objeto duplamente atraente. A partir disso, não é difícil chegar a outras séries que buscaram o mesmo resultado por atalhos.

Os laços sanguíneos emaranhados das famílias disputando pelo Trono de Ferro, os constantes segredos à espreita e a extensão do universo de Westeros criam essa perfurabilidade. De ‘Dark’ a ‘Westworld’, séries de TV com um quebra-cabeças complexo (algumas vezes usados para ofuscar os pontos fracos da trama) pegaram a cartilha para tentar um lugar ao sol.

É claro que não foi ‘Game of Thrones’ que inventou a perfurabilidade. ‘Lost’ e ‘Twin Peaks’ vêm à tona imediatamente quando falamos desta característica, mas há de se salientar que estas duas são caixas de mistério, enquanto o que GoT traz é pautado em um universo bem sedimentado pelo material de origem de George R.R. Martin. Uma diferença essencial.

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Por isso, ‘Game of Thrones’ apresenta esta forma de criar imersão para uma nova geração de fãs de TV. O fato de ela abrir espaço para a adaptação de outras obras de fantasia (como ‘The Witcher’, o novo derivado de ‘O Senhor dos Anéis’ e etc) não é necessariamente uma consequência de elas compartilharem o mesmo gênero, mas sim por também apresentarem universos ricos com alto potencial de franquia. Não à toa, a HBO já prepara vários spin-offs.

Altos investimentos financeiros

Na última temporada de ‘Game of Thrones’, a HBO investiu US$ 15 milhões por episódio, totalizando um orçamento de US$ 90 milhões para os seis capítulos. Nas primeiras temporadas, o orçamento médio era US$60-70 milhões por temporada — cerca de US$ 6 milhões por episódio*.

*A exceção é o episódio 9 da 2ª temporada, “Blackwater”, que ganhou US$ 2 milhões a mais para a construção da batalha.

Na sexta e na sétima temporadas, a série ganhou um acréscimo e custou à HBO US$ 10 milhões por episódio. Segundo o portal Finance Monthly, o orçamento total das oito temporadas foi de US$ 1,5 bilhão. Somente em assinaturas, no entanto, ela rendeu à HBO mais que o dobro: US$ 3,1 bilhões.

Isso não significa que ‘Game of Thrones’ seja a única série do planeta com um orçamento gigantesco. ‘Band of Brothers’ custou US$ 12,5 milhões por episódio lá em 2001. Em 2010, ‘The Pacific’ jogou mais alto e arrancou US$ 200 milhões dos cofres da HBO para 10 episódios.

Mas os valores são compreensíveis para séries que ousaram recriar à excelência algumas das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial — e, de quebra, foram imensamente premiadas. ‘Band of Brothers’ está entre os divisores de águas da TV pelo realismo empregado. 20 anos depois, ela ainda impressiona, e não necessariamente porque gastou muito nos efeitos práticos.

(Acreditem, eu sei porque assisti à temporada outro dia.)

Em produções mais recentes, ‘The Crown’ custa US$ 13 milhões por episódio, ‘Westworld’ fica na casa dos US$ 9 milhões e ‘The Mandalorian’ equipara os US$ 15 milhões. Valores altos, mas justificáveis. O problema começa quando esses investimentos soam como pura exibição.

Por exemplo, a Apple investiu US$ 15 milhões por episódio em ‘See’ (aquela série do Jason Momoa que é igual àquela outra série do Jason Momoa, e que a gente só viu mesmo aquela cena que tem um cara vendendo Skol Latão) e em ‘The Morning Show’.

Nada sobre uma série sobre um programa de TV matutino, cujo cenário é uma redação, a bancada e uma sala de controle, parece realmente pedir um orçamento desses — isto é, a não ser que Tim Cook tenha ficado com inveja daquela vez que a NBC pagou US$ 13 milhões por episódio de ‘ER’.

Já a Disney teria gastado US$ 25 milhões por episódio nas séries do Universo Cinematográfico Marvel — pelo menos com ‘WandaVision’, ‘Falcão e o Soldado Invernal’ e ‘Hawkeye’, de acordo com o The Hollywood Reporter.

Não significa que é culpa de ‘Game of Thrones’ a Disney investir um valor tão alto nas séries — faz parte da estratégia de Bob Iger de sedimentar o streaming e equiparar as séries aos longas da Marvel Studios, para citar apenas alguns fatores. Mas muitas vezes, tudo o que temos são grandes corporações jogando dinheiro ao vento em produções caríssimas que não parecem compensar em qualidade ou prestígio.

Tudo bem, elas têm dinheiro para fazer isso. Por que não, então? Não somente porque isso cria uma competição desleal no mercado (e, tudo bem, desde quando competição é leal?), mas porque o que elas simbolizam para a TV é um esvaziamento de conteúdo em prol de (supostos) espetáculos visuais sem um significado real.

Para o episódio ‘Battle of the Bastards’, da sexta temporada, David Benioff e D.B. Weiss também puderam gastar um pouco além dos US$ 10 milhões dos demais daquele ano. É quase consenso entre o público que trata-se de um capítulo fantástico, e apesar do trabalho memorável de Miguel Sapochnik (a melhor adição aos anos finais da série), o mesmo não pode ser dito do roteiro, que nos conduz de um ponto a outro sem grandes repercussões ou consequências emocionais que não fossem visíveis a quilômetros de distância.

E mesmo com um orçamento menor, a Batalha de Água Negra (episódio 2.09) ainda é mais memorável pelo quanto se dispõe a mostrar os terrores da guerra nos pequenos detalhes.

Da mesma maneira que ‘Game of Thrones’ incentivou a permissividade de altos gastos, também inspirou que estes fossem usados para mascarar a falta de criatividade ou inovação. É verdade que a Netflix também divide esta culpa, mas elas podem compartilhar esta coroa.

Quebra de expectativa

A decapitação de Ned Stark e o Casamento Vermelho, dois dos maiores eventos da série (e talvez entre os mais marcantes da televisão), são o que são não porque fazem grandes reviravoltas do roteiro. É o contrário.

Todos os pequenos acontecimentos que levam a eles estão ali, cuidadosamente pensados e selecionados, inseridos aos poucos de forma gradual, mas constante. Quando você repensa a trajetória de Ned e Robb, é possível rastrear seus erros e as cadeias de eventos que levaram à decapitação de um e ao assassinato de outro. Você só não sabia, da primeira vez, que todos os movimentos eram convergentes.

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Infelizmente, boas formas de criar surpresa são a exceção, e não a regra. Quando ‘Game of Thrones’ surgiu, de repente todo mundo queria um Bran Stark empurrado da Torre para chamar de seu. E não foram poucas as séries que tentaram tirar plot twists da cartola sem desenvolvimento algum.

A forma mais simples de surpreender, afinal, é justamente pulando toda a evolução… como aconteceu com uma certa rainha na oitava temporada, aliás.

Parece que o choque pelo choque virou a forma mais rápida e eficaz de prender a atenção do espectador em meio a tantos estímulos externos. A reviravolta mal construída acaba sendo apenas um atalho que sacrifica o roteiro em busca daquele espalhamento explicado lá no início do texto. Até mesmo ‘Game of Thrones’ se tornou vítima de si mesma neste quesito, apesar de os erros da temporada final serem uma consequência de várias escolhas equivocadas feitas ao longo do caminho.

It’s planting seeds in a garden you never get to see

Admito, é complicado falar de legado, até mesmo porque é um tipo de análise que exige tempo e distanciamento. São tendências que reverberam sem que sua origem tenha um controle sobre isso, mas entender a televisão é justamente tentar identificar esses rastros.

Apesar de uma década da estreia de ‘Game of Thrones’, estamos muito próximos da temporada oito, e no meio do caminho rumo aos prometidos derivados. Nossa recepção de ‘House of the Dragon’, prevista para 2022, será afetada pelo gosto amargo deixado pelo final de Thrones, e a capacidade da série de superar esse fardo (isto é, caso consiga) será crucial para que eventualmente, talvez (talveeeeeez) seja possível enxergar GoT sob uma perspectiva mais leve.

‘Game of Thrones’ não revolucionou a forma como se faz televisão, porque ela existiu entre o fim dos homens difíceis e o boom do streaming. Mas ela explorou uma transformação na forma como entendemos e nos relacionamos com o meio, e é exatamente essa alteração que é perpetuada e explorada pelos conteúdos do streaming. Seja na busca por engajamento, plot twists ou universos em expansão, nada é realmente novo, a não ser a junção das peças.

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E por hoje é só isso tudo! Beijos!

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FONTE: ‘A Game of Spread and Drill: os recursos de espalhabilidade e perfurabilidade em Game of Thrones’ <http://www.intercom.org.br/sis/2013/resumos/R8-1786-1.pdf>